Flexão de gênero

Flexão de gênero

A flexão de gênero

Embora, nas gramáticas do português, o adjetivo e o substantivo sejam considerados – como duas categorias distintas, a flutuarão categorial entre eles é grande.

Funcionalmente, muitos dos nomes podem ser, conforme o contexto, substantivos (termos determinados) ou adjetivos (termos determinantes). Assim, no enunciado um diplomata mexicano, o segundo vocábulo é substantivo e o terceiro adjetivo, já em um mexicano diplomata dá-se o inverso. Há, entretanto, alguns nomes que são essencialmente adjetivos (triste, grande, etc.) e outros que são essencialmente substantivos (homem, tigre, etc.). Mesmo assim, a distinção funcional não é absoluta:um homem tigre designa aquele que tem a ferocidade de um tigre e corresponde a um homem feroz.

Formalmente, a diferença entre essas duas classes gramaticais é também muito pequena. Por um lado, tanto os substantivos como os adjetivos são marcados por vogais temáticas (criança, mestre, medo, agrícola, verde, cinzento) ou por formas atemáticas terminadas em vogais tônicas e consoantes (filó, gibi, urubu, inspetor, cru, nu, burguês, tentador). Por outro lado, os adjetivos estão quase exclusivamente distribuídos nas formas em -e, -o e em consoantes, enquanto os substantivos encontram-se distribuídos em todas as formas.

Flexionalmente, ambos são suscetíveis de flexão de gênero e número, evidentemente apresentando pequenas diferenças. O gênero, que condiciona uma oposição entre forma masculina e forma feminina, é caracterizado por flexão, através do morfema /-a/ (forma marcada) no feminino, e do morfema Ø (forma não marcada), no masculinos (peru – perua). O número, que cria o contraste entre forma singular e plural, é também caracterizado por flexão, através do morfema flexional -s, no plural, e da forma não marcada no singular (peru – perus). Assim, conforme já se disse, o masculino e o singular em português caracterizam-se pela ausência de marca, isto é, por um morfema

A Flexão de Gênero

Tal flexão opera através do acréscimo do morfema flexional -a átono final à forma masculina. Quando a forma masculina é atemática, há simplesmente o acréscimo mencionado: peru – perua / autor – autora, mas, quando tal forma termina em vogal temática como pombo, parente, essa vogal é suprimida, através de uma mudança morfofonêmica, decorrente do acréscimo do morfema -apombo – o + a = pombaparente– e + a = parenta.

No entanto, nem todas as palavras são marcadas flexionalmente. Veja-se, por exemplo:case, livro, cônjuge, criança, em que a vogal final não indica gênero, mas simplesmente registra a classe gramatical. Embora não marcadas flexionalmente, tais palavras admitem a anteposição de um artigo: a casa, o livro, o cônjuge, a criança. Assim, em português, cabe ao artigo marcar, explícita ou implicitamente, o gênero dos nomes substantivos. Conseqüentemente, a flexão de gênero nos nomes é um traço acessório, redundante.

Essa flexão, acessória e redundante, embora se caracterize por um mecanismo simples, apresenta-se como um dos tópicos mais incoerentes e confusos de nossas gramáticas. Isso se deve, em primeiro lugar, à incompreensão semântica da natureza do gênero e, em segundo, à ausência de distinção entre processo flexional, de um lado, e processos lexicais, de outro.

Quanto à natureza, a flexão de gênero costuma ser associada intimamente ao sexo dos seres. Contra essa interpretação tem-se os seguintes argumentos: a) o gênero abrange todos os nomes substantivos portugueses, quer se refiram a seres animados, providos de sexo, quer designem apenas “coisas” como: mesa, ponte, tribo, que são femininos (precedidos do artigo a) ou sofá, pente, prego, que são masculinos (precedidos pelo o); b) o conceito de sexo não está necessariamente ligado ao de gênero: mesmo em substantivos referentes a animais e pessoas há algumas vezes discrepância entre gênero e sexo. Assim, a testemunhaa cobra são sempre femininos e o cônjuge, o tigre, sempre masculinos, quer se refiram a seres do sexo masculino ou feminino.

Em razão da ausência de distinção entre processo flexional e processo lexical, é comum ler-se em gramáticas do português que mulher é o feminino de homemque cabra é o feminino de bode. Trata-se de casos de heteronímia dos radicais, isto é, de vocábulos lexicalmente distintos, que, tradicionalmente, têm sido utilizados para indicar a categoria de gênero. Na realidade, a distinção gramatical se fa2s através do artigo. Assim, os substantivos mulher e cabra são sempre femininos, porque podem ser precedidos pelo artigo a, e homem e bode, a eles semanticamente relacionados, são do gênero masculino, porque podem ser precedidos pelo artigo o.

Esta interpretação também se estende a outro caso de heteronímia, àquele em que um sufixo derivacional tem distribuição limitada aos substantivos femininos, conforme os exemplos: o diácono – a diaconísa, o abade – a abadessa, o barão – a baronesa etc. Nesse caso, os sufixos derivacionais -isa, -essa, -esa, etc. são formadores e-e feminino. Há ocorrências, embora muito raras, de sufixos que aparecem só na forma masculina: o perdigão – a perdiz, ou em ambas as formas: o imperador – a imperatriz.

Não cabe também falar em uma distinção de gênero expressa pelas palavras macho efêmea, não só porque o acréscimo não é obrigatório (podemos falar em cobra e tigre sem acrescentar os apostos), mas também porque o gênero não muda com a indicação precisa de sexo (continua-se a ter a cobra macho no feminino, como assinala o artigo a e o tigre fêmea no masculino, conforme indica o artigo o.

Desse modo, não procedem as designações de epiceno, sobrecomum, comum de dois, usadas pela gramática tradicional. Ao lado de palavras como a cobra, existem outras como a vítima, a criança, o indivíduo, o algoz, que pertencem respectivamente aos gêneros feminino e masculino. A importância do artigo na distinção do gênero é tão importante que só através dele, ou de outro determinante ou modificador, palavras comoartista, colega, estudante, cliente, sem flexão, têm o gênero determinado: (o, a) artista, (o, a) colega, (o, a) estudante e (o, a) cliente.

Concluindo, pode-se dizer que, do ponto de vista flexionai, ao lado da regra básica de formação do feminino – acréscimo do morfema aditivo -a,,’ em oposição ao Ø do masculino – existem os seguintes casos de alomorfia:

  1. subtração da forma masculina: órfão – órfã; réu ré; mau má (morfema subtrativo);
  2. alternância vocálica redundante e não-redundante: redundante – vogal média posterior tônica fechada /ô/ – passa a aberta /ó/: formoso – formosa; novo – nova (morfema aditivo e alternativo); não-redundante – avô – avó e seus derivados (morfema alternativo);
  3. distinção de gêneros diferentes sem flexão: oa intérprete; oa mártir (morfema latente).

Ao lado desses morfemas flexionais (aditivo, subtrativo, alternativo e redundante), o gênero é também indicado pelos morfemas derivacionais femininos: diácono – diaconisa, abade abadessa, duque – duquesa.

No feminino das palavras em -ão, ocorrem ora morfemas subtrativos, como em irmão – irmã, ora morfemas aditivos. Neste caso, existem sempre mudanças morfofonêmicas, que se caracterizam ou pela perda da vogal nasal, como em leão-leoa (leão+a = le(ã)oa = leoa), ou por uma alteração no sufixo derivacional de aumentativo próprio da forma masculina, decorrente do acréscimo do morfema -a, como em valentão – valentona. Outras vezes, a flexão de gênero é marcada pelo acréscimo de um morfema derivacional de diminutivo à forma feminina, como em galo – galinha. Também entre os morfemas derivacionais estão as formas em -eu, como europeu – européia, nas quais o acréscimo do morfema -a ao sufixo derivacional acarreta uma mudança morfofonêmica que se caracteriza pela supressão da vogal assilábica e ditongação: europeu + a = europe (u) a = europea = européia.

As gramáticas poderiam ensinar o gênero dos substantivos a partir da descrição proposta, baseando-se, em primeiro lugar, na forma masculina ou feminina do artigo e considerando, em segundo lugar, a seguinte divisão em três grupos:

  1. nomes substantivos de dois gêneros com uma flexão redundante: (o) lobo – (a) loba; (o) mestre – (a) mestra; (o) pintor – (a) pintora;
  2. nomes substantivos de dois gêneros sem flexão aparente: (o, a) camarada; (o, a) selvagem; (o, a) mártir;
  3. nomes substantivos de gênero único:
    – (a) pessoa; (a) testemunha; (o) algoz; (a) mosca; (o) besouro; (a) mesa; (a) tábua; (o) disco; (o) livro;
    – (o) homem; (a) mulher; (o) bode; (a) cabra; (o) príncipe; (a) princesa; (o) sacerdote; (a) sacerdotisa.

Na descrição do gênero, como nas descrições lingüísticas em geral, à indispensável delimitar o piano gramatical e o lexical, tendo em vista que a gramática trata dos fatos gerais da língua e o léxico, dos fatos especiais. Assim, a descrição gramatical deve ser completada com as informações de um dicionário ou léxico, que seria constituído, segundo Chomsky (l965), de uma série não ordenada de regras lexicais, englobando todas as propriedades idiossincráticas de cada um dos itens lexicais. Caberia, então, a um dicionário do português, registrar as ocorrências de gênero não explicáveis pelos padrões gerais da gramática.

(SOUZA E SILVA, Maria Cecília P. de e KOCH, Ingedore Villaça. Lingüística aplicada ao Português. Cortez Editora, São Paulo, 1985. pp. 40-44.)  Matéria retirada do site da UFRJ

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